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Morre aos 104 anos o filósofo francês Edgar Morin, referência e intelectual versátil
O intelectual francês Edgar Morin, que lutou na Resistência durante a Segunda Guerra Mundial e dedicou sua vida a fomentar o pensamento crítico e combater a intolerância, morreu aos 104 anos, deixando uma obra prolífica e eclética que mistura história, filosofia, ciência e sociologia.
Sua morte, na sexta-feira, foi confirmada neste sábado (30) à AFP por sua esposa, Sabah Abouessalam Morin.
"Edgar Morin era o humanismo feito pessoa. Com sua benevolência e sua curiosidade, nunca deixou de nos iluminar. Pensamento complexo, vida fecunda, espírito universal", escreveu o presidente Emmanuel Macron em uma mensagem de condolências a seus familiares.
Filho de imigrantes judeus laicos, formou-se como sociólogo, mas preferia ser definido como um "humanólogo" que fundia elementos de filosofia, psicologia, etnografia e biologia para tentar compreender a natureza da humanidade.
Fora da França, era conhecido como o inventor do chamado "cinéma vérité" por seu documentário de 1961, realizado junto ao cineasta Jean Rouch, "Crônica de um verão", que retratava a vida de jovens parisienses comuns.
À pergunta "você é feliz?", surgiam conversas sobre questões de classe, raça e colonialismo. Um método que revolucionou a técnica do documentário em sua época.
Mas, para os franceses, Morin foi, antes de tudo, um guia intelectual que, com sua abordagem multidisciplinar, abarcava grandes questões de seu tempo.
"O que significa ser humano? O que é a globalização? O que é a vida? Estas perguntas nos exigem conectar conhecimentos que atualmente estão dispersos em diferentes campos de pesquisa", explicou em 2020 ao canal TV5 Monde.
Passados os 100 anos de idade, continuava participando do debate público, compartilhando suas reflexões com seus 220 mil seguidores no X sobre temas como as ondas de calor ou a guerra na Ucrânia.
"Até seus últimos dias, Edgar Morin permaneceu atento ao mundo, aos outros e aos grandes desafios humanos que alimentaram seu pensamento", afirmou sua esposa, também socióloga.
"Hoje, o vazio que ele deixa é imenso. Mas sua coragem, sua fidelidade às pessoas e às ideias, sua exigência moral e sua esperança continuam nos acompanhando", acrescentou.
Doutor honoris causa por 38 universidades estrangeiras, escreveu cerca de 40 livros traduzidos para vários idiomas, incluindo obras como "Introdução ao pensamento complexo", "O Método", "Lições da história" e "A cabeça bem‑feita".
- Expulso do Partido Comunista -
"Quanto mais conhecemos o ser humano, menos o compreendemos. As dissociações entre disciplinas o fragmentam, o despojam de vida, de carne, de complexidade, e certas ciências supostamente humanas chegam inclusive a esvaziar a noção de homem", escreveu Morin em "O Método", considerado um de seus trabalhos mais importantes.
Edgar Nahoum nasceu em 8 de julho de 1921, em Paris, filho único de uma família judaica sefardita originária da cidade grega de Tessalônica que havia emigrado para a capital francesa.
Aos 10 anos, sua mãe morreu, um fato que sua família tentou esconder dele durante semanas e que ele descreveu, décadas depois, como sua "Hiroshima pessoal".
Em 1941, ingressou no Partido Comunista e entrou para a Resistência com o pseudônimo de Morin.
Inicialmente defendeu uma resistência pacífica contra os nazistas, algo que mais tarde considerou um de seus dois grandes erros de julgamento, junto com seu apoio inicial a Stalin.
Em 1959, publicou "Autocrítica", um livro em que relatava sua expulsão do partido, do qual havia sido um dos dirigentes. Também foi um dos fundadores do comitê de intelectuais contra a guerra da Argélia.
A partir da década de 1970, começou a alertar sobre os perigos do crescimento econômico descontrolado e também foi crítico em relação ao tratamento dado por Israel aos palestinos.
Em 2002, foi coautor de um artigo que afirmava: "Os judeus, que foram vítimas de uma ordem implacável, impõem sua ordem implacável aos palestinos". Estas palavras lhe renderam uma denúncia por antissemitismo por parte de duas associações. Morin venceu na Corte de Cassação, o mais alto tribunal francês.
O intelectual publicou dezenas de livros, o último em 2025, com advertências sobre a mudança climática e a ascensão do nacionalismo.
Em uma entrevista à rádio francesa em 2021, lamentou a "ausência de consciência de que estamos caminhando para o abismo", mas acrescentou que não era "fatalista".
P.Staeheli--VB