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Guerra em Mianmar já deixou mais de 100 mil mortos
Mais de 100 mil pessoas morreram desde o início da guerra civil em Mianmar, desencadeada por um golpe de Estado militar em fevereiro de 2021, indicou nesta quarta-feira (1º) uma organização especializada em monitorar conflitos armados.
Há cinco anos, o Exército pôs fim a uma década de democracia no país do Sudeste Asiático, ao derrubar o governo eleito da Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, que foi detida.
Na época, as manifestações contra o golpe foram duramente reprimidas pelas forças de segurança, mas alguns ativistas pró-democracia deixaram as cidades e passaram a combater a junta dentro de movimentos armados liderados por minorias étnicas, hostis ao poder central.
Segundo os dados mais recentes da ONG americana Acled (Armed Conflict Location and Event Data), que compila incidentes noticiados pela imprensa, os confrontos deixaram ao todo 100.114 mortos.
Não há, contudo, nenhum balanço oficial, e as estimativas variam bastante. Mas analistas consideram que este é o conflito atual mais mortal da Ásia.
"É uma dor sem fim", declarou Thein Aye Nu, de 49 anos, cujo marido morreu em junho em um bombardeio aéreo. "Estou muito revoltada, mas já nem sei mais com quem".
- Conflito fragmentado -
O líder dos golpistas, Min Aung Hlaing, foi nomeado presidente recentemente em eleições que, internacionalmente, foram consideradas uma manobra para manter o regime militar no poder sob a aparência de um governo civil.
"Se não houvesse um golpe de Estado, as crianças estariam na escola", comentou um homem da região central de Magway. Seu filho, adolescente, morreu recentemente em combate depois de fugir de casa para se juntar aos rebeldes.
Segundo as Nações Unidas, mais de 3,7 milhões de pessoas tiveram de abandonar seus lares e vivem como deslocadas dentro do país; e mais de uma em cada cinco sofre de insegurança alimentar.
Em Magway, as pessoas dormem cercadas pelo pouco que conseguiram levar consigo, mas fugir dos combates só lhes traz alívio parcial.
"A situação está ruim em toda parte", lamentou Yin Than, uma mulher de 39 anos que ficou viúva há dois anos, quando seu marido, que se armou para defender a democracia, foi morto. "Em casa não dá para viver e nos lugares em que encontramos abrigo, também não".
Na maior cidade de Mianmar, Yangon, vive-se com relativa normalidade, mas às vezes ocorrem assassinatos esporádicos. Outras regiões são frequentemente bombardeadas por aviões militares fornecidos pela Rússia e pela China.
A Acled identificou mais de 1.200 grupos armados distintos nesta caótica guerra civil, que qualificou como o "conflito mais fragmentado do mundo".
"O conflito se espalhou por todo o país", apontou Sun Mon Thant, analista da Acled. "Estamos vendo cada vez mais massacres. O exército atacou escolas, clínicas, prisões".
"Nesta guerra, matam as pessoas indiscriminadamente e sem qualquer consideração", disse Thaung Sein, uma mulher de 45 anos, no município de Myit Chay, na região de Magway.
Segundo contou, seu filho foi morto em maio, quando a família fugia de uma ofensiva militar. Encontraram-no com o corpo totalmente queimado e cheio de ferimentos, em meio a um cenário desolador de aldeias devastadas.
Os socorristas tiraram fotos, mas não quiseram mostrá-las a ela para que não sofresse ainda mais, disse.
- Enviados "à morte" -
No final de 2023, uma ofensiva conjunta de vários grupos rebeldes lhes permitiu avançar de forma espetacular e se aproximar de Mandalay, a segunda cidade do país.
Mas, segundo analistas, a situação voltou a favorecer o exército no ano passado, graças ao apoio da China e à assinatura de tréguas com dois dos grupos armados étnicos mais poderosos.
O Estado-Maior instaurou em fevereiro de 2024 o serviço militar obrigatório para reforçar suas fileiras, recrutando à força cerca de 50.000 civis.
"É como se simplesmente estivessem mandando essas pessoas para a morte", disse um homem de 20 anos, que desertou depois de seis meses na linha de frente. "Se você não morre, mandam você para outro lugar".
A guerra afetou indiretamente países vizinhos, para onde fugiram muitos refugiados, que vivem sobretudo em campos na Tailândia e em Bangladesh.
Alguns observadores destacam que muitos dos grupos armados financiam o esforço de guerra com o tráfico de drogas, como heroína e metanfetaminas.
Além disso, nas zonas fronteiriças proliferaram os centros de golpes digitais, que operam em complexos vigiados por milícias.
K.Hofmann--VB