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Onda de violência põe esquerda à prova nas presidenciais da Colômbia
Os colombianos vão escolher seu novo presidente do próximo domingo (31) em eleições que serão realizadas em meio à pior onda de violência em uma década, nas quais vão decidir se ratificam a esquerda, no poder pela primeira vez no país, ou se inclinam para a direita.
Sem a possibilidade de disputar a reeleição, o presidente Gustavo Petro termina seu mandato com menos desemprego e salários mais altos, em um contexto de recrudescimento do conflito armado, marcado por atentados com carros-bomba, drones explosivos e o assassinato de um pré-candidato presidencial.
Nas pesquisas aparece como favorito o senador esquerdista Iván Cepeda, de 63 anos, aliado de Petro no partido Pacto Histórico, que aposta na continuidade de suas políticas sociais e das negociações de paz com os grupos armados.
"Eu dou a eles o meu voto porque minha vida mudou com este governo, pude ir para a universidade de forma gratuita (...) e foi um peso a menos para minha família", disse à AFP Natalia Rojas, de 23 anos, estudante de design em Bogotá e beneficiária de um programa de educação subsidiada.
Para vencer em um único turno, o candidato precisa obter mais da metade dos votos. As pesquisas preveem um segundo turno em 21 de junho entre Cepeda e o advogado direitista Abelardo de la Espriella.
Apelidado de "El Tigre", De la Espriella, um excêntrico milionário de 47 anos, sem experiência política e que costuma usar colete à prova de balas, encarna a rejeição a Petro e a linha-dura no enfrentamento às guerrilhas e aos narcotraficantes.
A direita chega dividida com outra opção, em terceiro lugar nas pesquisas: a senadora Paloma Valencia, de 50 anos, candidata do Centro Democrático, o partido do popular ex-presidente direitista Álvaro Uribe (2002-2010), e pertencente a uma das famílias mais poderosas da Colômbia.
"Esta eleição está muito marcada pela luta de classes, acredito que é o que está funcionando com Petro (...) Aí está toda sua munição eleitoral", disse à AFP o cientista político Álvaro Forero.
- "Extremamente grave" -
Diferentemente de outros países na América Latina que optaram por uma guinada para a direita, na Colômbia a esquerda dá poucas demonstrações de desgaste.
Neste mandato, o salário mínimo nominal aumentou 75% e o desemprego caiu, impulsionado em parte pela contratação estatal em um dos países mais desiguais do mundo.
Mas a oposição questiona a deterioração da segurança, apesar das políticas de "paz total" com as quais Petro tentou, sem sucesso, desmobilizar os grupos que permaneceram em armas após a assinatura do acordo com a guerrilha das Farc, em 2016.
Especialistas coincidem em que as organizações armadas aproveitaram as negociações para se fortalecer.
"O ano de 2025 foi muito ruim. O sequestro aumentou mais de 110% em comparação com o ano anterior. Chegamos ao número mais alto de deslocamentos em quase 20 anos (..) A situação é extremamente grave para os candidatos", ameaçados após o assassinato, no ano passado, do pré-candidato da direita Miguel Uribe, disse Juanita Goebertus, diretora para as Américas da organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch.
O auge do narcotráfico azedou as relações entre Petro e o presidente americano, Donald Trump, com uma crise que escalou para a troca de ofensas e esteve prestes a arruinar uma cooperação entre países que sempre foram aliados históricos, até que em um encontro na Casa Branca, em fevereiro, os dois presidentes acalmaram as tensões.
"O que De la Espriella quer fazer é organizar a casa, tal como está fazendo (o presidente Nayib) Bukele em El Salvador", comentou Wilmer Bolívar, um militar reformado de 47 anos em Bogotá.
El Salvador vive desde 2022 sob um regime de exceção, decretado por Bukele para conter as gangues, que permite detenções sem ordem judicial, razão pela qual é duramente criticado por organismos de defesa dos direitos humanos.
De la Espriella propõe construir mega-presídios onde os presos se alimentem a "pão e água" e fiquem "dez andares debaixo da terra", bombardear acampamentos de narcotraficantes com aviões americanos e eliminar o tribunal surgido do acordo de paz.
- Desafios -
O próximo presidente da Colômbia terá o desafio de fazer frente a um déficit fiscal de quase 7% do PIB e uma dívida pública que passa de 64% do Produto Interno Bruto, sem novas receitas petrolíferas por conta de uma transição energética do governo que freou a exploração desta commodity.
Petro recebeu uma economia fragilizada após a pandemia, arrecadou menos impostos que o esperado e levou os cofres públicos ao limite para financiar políticas sociais, enquanto o Congresso impôs um freio a algumas de suas reformas.
"O que está em jogo é continuar com as bandeiras da mudança que Petro conseguiu manter ou rechaçá-las, mas a oposição se equivocou ao oferecer basicamente um 'Fora Petro!', que não é uma visão de futuro, mas de passado", explicou Forero.
S.Spengler--VB