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Sobrevoo de aeronaves militares dos EUA desperta curiosidade e dúvidas em Caracas
Augusto Pérez contemplou com emoção o pouso, neste sábado (23), de duas aeronaves militares na embaixada dos Estados Unidos em Caracas. Para ele, é "algo inédito", cinco meses depois da captura do mandatário Nicolás Maduro em uma operação de Washington com bombardeios.
Dezenas de moradores gravaram com seus celulares o sobrevoo de duas aeronaves Bell Boeing MV-22B Osprey pelos céus de Caracas como parte de um simulacro de evacuação na manhã deste sábado.
O som de suas hélices ecoou nos arredores da zona nobre do leste de Caracas, onde fica a sede diplomática dos Estados Unidos.
Os bombardeios realizados pelas forças americanas em 3 de janeiro, durante a captura de Maduro, semearam o pânico em Caracas e arredores, e deixaram quase 100 mortos, incluindo 32 agentes cubanos.
Desta vez, os moradores, longe de se assustarem, observaram emocionados. "Quero ver como eles pousam", dizia Pérez, engenheiro de 70 anos, em um mirante onde residentes e jornalistas se aglomeraram pouco antes do pouso.
Por volta das 10h30 locais (11h30 no horário de Brasília), as duas aeronaves militares se aproximaram da sede diplomática dos Estados Unidos, constatou uma equipe da AFP. Elas levantaram poeira e folhas ao aterrissar no estacionamento da embaixada.
"Em 56 anos que tenho, é a primeira vez que vejo isso", confessou Franco Di Prada, morador da região. Disse que estava com "curiosidade, dúvidas".
Se trata de "um exercício de resposta militar", informou a própria embaixada dos Estados Unidos em suas redes sociais.
"Garantir a capacidade de resposta rápida do exército é um componente essencial da preparação da missão, tanto aqui na Venezuela quando em todo o mundo", acrescentou em uma mensagem em espanhol.
Um caminhão de bombeiros e motos da polícia haviam chegado mais cedo para a operação.
- Chavismo questiona simulacro -
A Venezuela informou, na quinta-feira (21), que autorizou o exercício aéreo com o sobrevoo na capital, o que desencadeou críticas entre as bases mais radicais do chavismo.
Antes do pouso, um pequeno grupo de chavistas protestou do outro lado de Caracas. A frase "Não à simulação ianque" foi exibida em uma bandeira venezuelana durante a manifestação.
Fita González, uma intérprete de 28 anos, rejeitou a "interferência militar" dos EUA, mas justificou a aprovação do exercício por Caracas. "Infelizmente, nosso governo está sob ameaça; não podemos esquecer que eles sequestraram nosso presidente", disse ela.
Caracas e Washington restabeleceram suas desgastadas relações diplomáticas em março, após mais de sete anos de ruptura sob o comando de Maduro.
A presidente interina Delcy Rodríguez governa sob forte pressão de Washington e promoveu reformas nas leis de hidrocarbonetos e mineração favoráveis ao investimento estrangeiro.
Antes de 3 de janeiro, a notória presença militar americana na Venezuela era uma raridade.
O falecido presidente Hugo Chávez (1999-2013) pôs fim à cooperação e ao intercâmbio militar com os Estados Unidos, incluindo a saída de oficiais americanos, a partir de abril de 2005.
Esta medida encerrou décadas de laços militares e deu uma guinada radical na política externa venezuelana em direção ao anti-imperialismo. O país caribenho voltou suas alianças para a Rússia, Cuba e Irã.
P.Staeheli--VB