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Presidente da Bolívia reorganizará governo para conter protestos
O presidente da Bolívia, o político de centro-direita Rodrigo Paz, anunciou nesta quarta-feira (20) que promoverá mudanças em seu gabinete de ministros para incluir setores sociais, em uma tentativa de apaziguar os protestos que exigem sua renúncia apenas seis meses após assumir o poder.
Paz enfrenta uma onda de manifestações de camponeses indígenas, transportadores, operários e mineiros, além de bloqueios de estradas de acesso a La Paz há três semanas, em meio à pior crise econômica do país em quatro décadas.
Em sua primeira aparição diante da imprensa em quase uma semana, o mandatário também anunciou a criação de um "conselho econômico e social", uma instância para construir consensos sobre o rumo que seu governo propõe para o país.
"Temos que reorganizar um gabinete que precisa ter capacidade de escuta", afirmou em entrevista coletiva no Palácio do Governo, em La Paz, sem especificar quando serão realizados os ajustes em sua equipe.
Mais cedo nesta quarta-feira, o chanceler boliviano, Fernando Aramayo, denunciou que grupos nos protestos buscam enfraquecer o governo e alterar a "ordem democrática e constitucional".
"Não vou dialogar com vândalos (...). Com aqueles que respeitam a democracia, as portas estarão sempre abertas", enfatizou o presidente diante da imprensa.
A cidade de La Paz, capital política da Bolívia e principal foco dos protestos, viveu nesta quarta-feira uma jornada de relativa calma, com uma marcha pacífica de centenas de camponeses e transportadores.
"Este governo tem que ir embora. Se não quiser que corra sangue, que saia pacificamente", disse à AFP Romer Cahuaza, transportador que reivindica um melhor abastecimento de combustíveis.
Cerca de duas centenas de manifestantes mantiveram temporariamente fechado o aeroporto de El Alto, que atende La Paz, sem que a polícia se deslocasse ao local. "O ingresso (de passageiros) é normal", informou à AFP o setor de informações do terminal aéreo.
O principal sindicato do país, a Central Operária Boliviana (COB), anunciou para quinta-feira novas marchas em La Paz.
O governo assegura que os protestos são orquestrados pelo ex-presidente socialista Evo Morales (2006-2019), foragido da Justiça por um caso de suposto tráfico de uma menor.
Paz, novo aliado do presidente Donald Trump na América Latina, recebeu o apoio dos Estados Unidos. "Não permitiremos que criminosos e narcotraficantes derrubem líderes eleitos democraticamente em nosso hemisfério", escreveu no X Marco Rubio, secretário de Estado americano.
- "Já não comemos carne" -
Pelo menos 44 pontos de bloqueio são registrados em todo o país, segundo a administração estatal de estradas, o que aumentou a escassez de alimentos, combustíveis e medicamentos em La Paz.
Os bloqueios "afetam não apenas os mercados, afetam todo mundo, mas menos os ricos (...) Nós, toda essa gente que não tem dinheiro, já não comemos carne", lamentou Julio Pérez, ex-motorista de 82 anos.
O governo foi obrigado a estabelecer uma ponte aérea, com voos saindo de Santa Cruz (leste) e Cochabamba (centro), para abastecer a cidade andina com carnes e vegetais.
"Estamos muito preocupados com essa questão e fazendo as compras que é possível fazer, tudo aumentou", declarou à AFP Fernando Carvajal, funcionário bancário de 67 anos.
O governo também anunciou um próximo "corredor humanitário" nas estradas bloqueadas, o que implica uma operação policial para desativar os protestos e permitir a passagem de cargas.
A Bolívia atravessa sua crise econômica mais grave desde a década de 1980. O país esgotou suas reservas de dólares para sustentar uma política de subsídios aos combustíveis, que Paz eliminou em dezembro. A inflação anualizada foi de 14% em abril.
Em meio à tensão, a chancelaria anunciou nesta quarta-feira a expulsão da embaixadora da Colômbia, Elizabeth García, após considerar que o presidente Gustavo Petro incorreu em uma "interferência direta" nos assuntos da Bolívia.
Petro havia classificado os protestos como uma "insurreição popular" e, nesta quarta-feira, afirmou que a Bolívia está "caminhando para extremismos".
A chegada de Paz ao poder pôs fim a 20 anos de governos socialistas liderados por Morales e Luis Arce (2020-2025).
I.Stoeckli--VB