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Membros de gangue ouvem relato de seus crimes na megaprisão de El Salvador
Sem se abalar, cerca de 220 membros da Mara Salvatrucha ouviram nesta quinta-feira (23) o relato aterrador de uma testemunha sobre as torturas e assassinatos cometidos pela gangue em El Salvador, durante o quarto dia de um julgamento em massa contra eles.
Sentados em cadeiras de plástico, em uma sala do Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), os membros da gangue são julgados por mais de 29 mil assassinatos, incluindo os de 87 pessoas em março de 2022, que levaram o presidente Nayib Bukele a declarar "guerra" às gangues.
Ao todo, são 486 detentos que, a partir de diferentes prisões, comparecem virtualmente neste julgamento que Bukele compara aos Julgamentos de Nuremberg após a Segunda Guerra Mundial.
Vestidos com camiseta e short brancos, ouviram em total silêncio o interrogatório do juiz a um membro da gangue que atua como testemunha no Tribunal Sexto contra o Crime Organizado de San Salvador, observaram repórteres da AFP.
A uma das vítimas "queimamos os genitais e as nádegas", foi possível ouvir pelo alto-falante a testemunha dizer, ao relatar como torturavam e assassinavam suas vítimas por ordem dos chefes.
Entre os julgados no Cecot há cerca de vinte desses líderes e dezenas de tenentes com o rosto, a cabeça, as mãos e o pescoço tatuados, alguns dos quais lançaram olhares intimidadores aos jornalistas. Todos são observados por telas a partir do tribunal.
Os julgamentos em massa são criticados por organizações de direitos humanos, que alertam que podem envolver inocentes. Eles foram aprovados pela maioria governista no Congresso para processar cerca de 90 mil pessoas detidas sem ordem judicial sob um estado de exceção.
- Chefes temidos -
O promotor perguntou à testemunha sobre as características das vítimas. Segundo o relato, muitas eram amarradas pelas mãos e levadas a áreas isoladas, onde os crimes eram cometidos.
É um "relato assustador" que "arrepia", comentou à AFP no Cecot um agente de segurança encapuzado que não se identificou.
Outras duas "testemunhas protegidas", apresentadas nesta quinta-feira, relataram como líderes da gangue ordenavam os homicídios a partir das prisões, detalhou mais tarde na rede X o promotor-adjunto contra o crime organizado, Max Muñoz.
Em três pequenas salas estavam 15 membros da chamada Ranfla Nacional (cúpula) da MS-13, aos quais são atribuídos diretamente cerca de 9 mil crimes.
Em uma delas estava o principal "ranflero" Borromeo Henríquez ("Diablito de Hollywood"), enquanto em outra estava Carlos Tiberio Ramírez ("Snaider de Pasadena"). Ambos ouviram as acusações sem demonstrar reação.
Com a mesma atitude permaneceram os demais acusados, algemados nos pés e nas mãos, em um ambiente quente marcado pelo som da chuva. Eram 220 chefes distribuídos em 10 fileiras.
Ao final de uma dessas fileiras estava Dionisio Arístides Umanzor, o temido "Sirra", que comandava uma das "clicas" (células) mais violentas.
Esses "indivíduos por muitos anos causaram luto e dor à nossa sociedade", declarou à imprensa o diretor do Cecot, Belarmino García.
O pavilhão 3 da megaprisão, que costuma ser mostrado pelo governo de Bukele a visitantes estrangeiros e influenciadores, estava com suas 32 celas vazias. Seus ocupantes foram levados para outra área da prisão para não interferirem na audiência.
Muitos dos acusados já cumprem longas penas no Cecot, onde um grupo de meios de comunicação estrangeiros entrou sob um rigoroso protocolo e medidas extremas de segurança.
M.Betschart--VB