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Motorista de ônibus, o trabalho mais perigoso do Peru por causa da extorsão
O motorista Marco Antonio Huamán enchia o tanque em um dos bairros mais pobres de Lima quando quase foi assassinado. Um pistoleiro embarcou no ônibus que dirigia e atirou em sua perna.
A empresa para a qual trabalhava tinha sofrido extorsão. Huamán contou à AFP que além do tiro, o pistoleiro deixou um recado para ser transmitido à sua empresa, Santa Catalina: "ou se comunicam ou da próxima vez deixo um morto".
A chantagem do crime organizado castiga os peruanos, especialmente em Lima, a capital, com 10 milhões de habitantes.
A crise da segurança precipitou a destituição da presidente Dina Boluarte em 10 de outubro, em um julgamento político no Congresso, em meio a protestos que se tornaram violentos com dezenas de feridos entre policiais e manifestantes.
O governo interino de José Jerí declarou estado de emergência em Lima na quarta-feira e mandou militares para patrulhar as ruas.
Com cerca de 50 homicídios este ano, segundo o sindicato dos profissionais dos transportes, os motoristas sentem que exercem o ofício mais perigoso do país.
"É a profissão mais arriscada que temos aqui, não há outra", reforçou Huamán em sua casa no bairro popular de San Juan de Lurigancho.
Em 23 de setembro, este motorista de 49 anos esteve à beira da morte. Em um vídeo que ele mostra no celular, aparece caído e ensanguentado no piso do veículo.
Ele ainda está se recuperando do impacto da bala. Depois do "milagre" de sobreviver, não quer mais voltar ao seu ofício.
As empresas de ônibus devem pagar um percentual mensal às quadrilhas que as extorquem. Se não o fazem, mandam pistoleiros para matar os motoristas.
Em Lima houve pelo menos 12 homicídios por extorsão em 2024. Mototaxistas e motoristas foram as principais vítimas, segundo o observatório Indaga, subordinado ao Ministério da Justiça.
O silêncio impera nos pontos de ônibus. A empresa evitou falar com a AFP.
- "Medo" -
Os atentados costumam acontecer à noite e sem aviso. E alguns acontecem na frente dos passageiros.
"Você vive com medo. Sente ansiedade, até depressão", conta o motorista.
Nos últimos meses, relata, outros dois colegas de sua empresa sofreram atentados. Ambos ficaram feridos, mas sobreviveram.
Muitos não querem mais dirigir.
"Eu pensei em renunciar a isto, mas preciso do dinheiro", explica David, enquanto faz sua rota. O motorista de 48 anos não quis dar seu sobrenome por medo.
Ele trabalha cerca de 14 horas por dia e ganha aproximadamente 25 dólares (R$ 134,5) por dia para sustentar sua companheira e dois filhos.
As quadrilhas ilegais se aproveitam da precariedade do trabalho e da informalidade, que chega a 70% no Peru, para cooptar pessoas de baixa renda para engrossar suas fileiras.
- Voltar para casa -
Os dois motoristas compartilham o medo de não voltar para casa.
Quando foi atacado, Huamán contou, com lágrimas nos olhos, que pediu a Deus que cuidasse de seus dois filhos.
Presa da paranoia depois do ataque, ele diz que gostaria de viver em um país com um governo de linha-dura contra o crime organizado.
"Prefiro viver em El Salvador, no país do senhor (Nayib) Bukele, porque acho que agora é o país mais seguro", diz.
Aqui "te matam por 20 soles [cerca de R$ 27]", lamenta. Ele diz que gostaria de empreender, abrir o próprio comércio, mas tem medo dos criminosos que também extorquem este setor.
A insegurança é a principal preocupação dos peruanos com vistas às eleições gerais de 2026.
David conta que sua filha de 5 anos começa a chorar e lhe pede que não vá trabalhar.
Mas, como alguém de baixa renda não pode deixar o trabalho e emigrar, como gostaria.
"Antes [ser motorista] era tranquilo (...), mas faz meio ano que não mais", diz David, que iniciou no trabalho aos 13 anos como cobrador e começou a dirigir quando completou a maioridade.
Entre janeiro e setembro foram registradas 20.705 denúncias por extorsão no Peru, segundo a polícia, quase 29% mais que no ano anterior. O crime muitas vezes é coordenado dentro das prisões.
"Peço a este governo que tome as medidas mais fortes contra a criminalidade", disse Huamán.
O.Schlaepfer--VB