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Do Tiktok ao 2º turno: a fórmula do candidato que surpreendeu a Bolívia
O senador Rodrigo Paz, que surpreendeu como o candidato mais votado no primeiro turno presidencial na Bolívia, construiu seu sucesso com a imagem incorruptível de seu vice, centenas de vídeos nas redes sociais e anos de viagens pelo país.
O economista de centro-direita, de 57 anos, alcançou 32,1% dos votos nas eleições de domingo, seguido pelo ex-presidente de direita Jorge "Tuto" Quiroga (26,8%), segundo resultados oficiais parciais.
Os dois disputarão o segundo turno em 19 de outubro para decidir quem encerrará 20 anos de governos de esquerda.
Uma semana antes da eleição, as principais pesquisas ainda situavam o filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora (1989-1993) entre o terceiro e o quinto lugar.
Seus adversários dominavam as telas das televisões e enchiam as ruas com anúncios. Mas Paz conectava-se com o eleitorado por outros meios: redes sociais e encontros cara a cara.
"Ele tem carisma como um pai (...), soube chegar às pessoas", diz à AFP Sara Medina, advogada de 51 anos, em uma praça da cidade de Tarija. Paz é senador pelo departamento de mesmo nome, com 530 mil habitantes, desde 2020.
Acompanhado por seu candidato a vice-presidente, Edman Lara, um ex-capitão da polícia de 39 anos, popular por denunciar nas redes sociais a corrupção em sua instituição, viralizou de uma forma que colocou em dúvida a reputação das pesquisas locais.
- Sem dinheiro -
Paz não fez jingles. Não distribuiu publicidade. Não alugou palcos para comícios. "É um caso onde a autenticidade e a narrativa digital venceram todo o aparato tradicional dos meios de massa e do dinheiro", afirma Erick Hurtado, especialista boliviano em marketing político.
E, embora sua equipe tenha aplicado uma espécie de guerrilha de marketing, ele não é um outsider. Vereador, prefeito, deputado e senador, o candidato do Partido Democrata Cristão tem mais de duas décadas na política.
Quando o "capitão Lara" juntou-se à sua campanha em maio, sua popularidade e espontaneidade deram um novo impulso à candidatura nas redes sociais. "Eles se conectaram diretamente com (...) um eleitorado jovem, mais popular", diz Hurtado.
Desde 2023, Lara é um símbolo da luta contra a corrupção ao denunciar com vídeos, inclusive ao vivo, casos de abusos policiais no Instagram e TikTok. Ele acumula dezenas de milhares de "curtidas" e comentários.
"Enquanto Lara fazia redes sociais, Rodrigo visitou muitos lugares do país" por terra e com poucos recursos, aos quais chegou "viajando muitas horas pelas estradas", aponta o especialista.
Paz diz que começou suas viagens há quatro anos e que visitou 220 dos 340 municípios do país.
Em julho, não foi convidado como outros candidatos para um fórum organizado por empresários em Santa Cruz, o motor econômico da Bolívia. Sua equipe de campanha invadiu o local e ergueu um grande banner com um número de telefone "para convidar o candidato (...) para fóruns e debates". O incidente ganhou popularidade.
Na última segunda-feira, no dia após a eleição, foi o capitão Lara que roubou os holofotes em um comício em El Alto, a 4.100 metros de altitude, cercado por cerca de mil simpatizantes.
"Eu sou a garantia. Se Rodrigo Paz não cumprir, eu o confrontarei", lançou como advertência ao próprio companheiro de chapa.
- No centro -
Enquanto na capital Paz venceu com uma votação esmagadora (46,9%), em Tarija, onde reside, obteve um modesto terceiro lugar. Seu mandato como prefeito na capital desse departamento deixou muitos eleitores insatisfeitos.
"Seu sobrenome tem um peso histórico, mas ele não teve o apoio de sua terra (...). Sofreu uma espécie de voto punitivo", explica Hurtado.
O cenário para Paz e Lara será muito diferente no segundo turno. Agora, estarão no centro do debate nacional e serão alvo de ataques.
"Já não são mais os inesperados (...). Precisam aprofundar a narrativa, ampliar a proposta e se blindar contra a guerra social e digital", além de manter o contato presencial com as pessoas, aponta o especialista.
Ainda faltam dois meses para o segundo turno. "O discurso anticorrupção do capitão Lara foi potente, mas não é suficiente para governar", conclui.
K.Sutter--VB