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Com a neve diminuindo, estações de esqui do Chile se adaptam às mudanças climáticas
Os turistas aproveitam os Andes nevados durante o inverno no Chile, mas a diminuição contínua da camada de neve devido às mudanças climáticas obriga as estações de esqui a se prepararem para que essa icônica paisagem não se torne apenas uma lembrança.
"Os Andes são uma das regiões que mais rapidamente está perdendo neve no mundo, por uma combinação de perda de precipitações e aumento da temperatura", explica à AFP o climatologista da Universidade de Santiago Raúl Cordero.
Localizado 450 km ao sul de Santiago, Nevados de Chillán é uma das principais estações de esqui do Chile. Este ano, abriu suas pistas antecipadamente após uma grande tempestade em meados de junho.
Chilenos, argentinos, europeus e brasileiros aproveitam para esquiar em uma floresta nativa — com carvalhos, coihues ou raulís — nas pistas mais extensas da América do Sul.
"Parece que estamos em um filme", diz o empresário brasileiro Oscar Daniel, de 43 anos.
É o segundo ano que ele vem com a família. Prefere o local às estações de Santiago ou da Argentina pela tranquilidade e, sobretudo, pela paisagem que, em 2011, foi declarada reserva mundial da Biosfera pela Unesco.
Mas desde junho não voltou a nevar com intensidade, embora isso ainda não afete as pistas nem preocupe os turistas.
"Em 40 anos sempre vi assim: alguns anos com muita neve; outros com um pouco menos", diz o engenheiro chileno José Miguel Ballivian, de 61 anos.
- Menos neve e mais no alto -
Nevados de Chillán recebe 500 mil turistas por ano. Conta com 20 pistas, banhos termais e 10 mil hectares.
Em 2024, como todos as estações de esqui chilenas, viveu sua melhor temporada em uma década, com abundante queda de neve devido às fortes precipitações causadas pelo fenômeno El Niño.
Mas neste ano, segundo o Observatório Climático da Universidade San Sebastián, a quantidade de neve nos Andes chilenos é a metade da registrada em 2024, por conta de "menores precipitações e temperaturas mais altas que o habitual".
"A combinação de calor e menos precipitação explica por que estamos perdendo neve nos Andes na velocidade em que estamos perdendo", explica Cordero.
Segundo suas pesquisas, o ritmo de redução da camada de neve chega a 10% por década.
A neve também vai ficar confinada às altitudes mais elevadas. Juan Pablo Boisier, do Centro de Ciência do Clima e Resiliência, afirma que a linha da neve está subindo, em média, 100 metros a cada 10 anos.
- Adaptação -
Os Andes representam uma porção muito pequena no mercado de esqui, mas a adaptação já começou.
Em Nevados de Chillán, foram "implementados alguns canhões que geram neve artificial para manter algumas pistas, sobretudo nas áreas mais baixas", diz Verónica Vera, gerente de assuntos públicos e sustentabilidade.
Os canhões de neve também são amplamente utilizados nos Alpes.
No verão, as pistas de esqui se transformam em trilhas para bicicletas. O local será sede, em março de 2026, do Campeonato Mundial Sênior de Mountain Bike.
Mais ao sul, na estação de esqui Corralco, utiliza-se o "snow farming": armazenam neve e a compactam com máquinas em locais frios para depois espalhá-la. Com esse método, não foi necessário o uso de canhões de neve.
No entanto, as estações de esqui de Santiago são as mais expostas ao aumento da temperatura. Farellones, a de menor altitude, reconverteu suas operações para um "centro de montanhas" e já quase não se praticam mais esportes de inverno ali.
"As estações de esqui da capital estão investindo na fabricação de neve", diz James Ackerson, presidente da Associação de Estações de Esqui do Chile.
Com temperaturas baixas e alta umidade, são acionados os canhões que ejetam o pó de neve.
A técnica é criticada pelo uso intensivo de água e energia, mas em Santiago são usados reservatórios abastecidos com a própria neve derretida, explica Cordero.
Até o final do século XXI, 18% das estações de esqui nos Andes poderiam fechar, enquanto no mundo todo esse número seria de 13%, segundo uma pesquisa de Veronika Mitterwallner, da Universidade de Bayreuth, na Alemanha.
Estações de esqui europeias em baixa altitude já fecharam suas portas de forma definitiva.
Em geral, as mais expostas em nível mundial ainda são "as menores, com impacto muito marginal no negócio global do esqui", diz à AFP o especialista suíço em turismo de montanha Laurent Vanat.
R.Flueckiger--VB