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Kast acelera mudança de rumo no Chile
Com apenas três semanas no cargo, o presidente de extrema direita José Antonio Kast deu uma guinada no Chile, com o anúncio de cortes orçamentários e o recuo em algumas decisões cruciais tomadas por seu antecessor, o esquerdista Gabriel Boric.
Kast, advogado de 60 anos, prometeu um "governo de emergência" e "linha-dura" para enfrentar o crime, a imigração irregular e reativar a economia.
Em seus primeiros dias no cargo, ele iniciou a construção de trincheiras nas fronteiras, freou os trâmites de regularização de mais de 180.000 imigrantes, reduziu em 3% as despesas correntes de seus ministérios e suspendeu a entrada em vigor de mais de 40 decretos ambientais para priorizar a criação de empregos.
"Estão tirando tudo o que a esquerda fez e não acho que saibam o que as pessoas comuns sentem", disse à AFP Rodrigo Araya, um cozinheiro de 27 anos de Santiago.
O cientista político Rodrigo Espinoza, da Universidade Diego Portales, destaca que as mudanças de Kast são esperadas porque "foi algo que prometeu na campanha".
O novo governo anunciou que vai suspender a expropriação da Colônia Dignidad, um enclave alemão que funcionou como um antigo campo de repressão durante a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990), por motivos econômicos.
Mas a decisão que mais impacta a economia dos chilenos é seu ajuste severo do mecanismo que amortecia as altas bruscas nos preços dos combustíveis. Na semana passada, a gasolina disparou 30% e o diesel, 60%.
Essas medidas foram executadas através de decretos e ordens executivas, sem passar pelo Congresso, onde o Partido Republicano de Kast não tem maioria.
O Executivo espera economizar 6 bilhões de dólares (aproximadamente R$ 31 bilhões) para reduzir o déficit fiscal, que encerrou 2025 em 3,6% do PIB. Seus críticos duvidam que consiga fazê-lo sem afetar os benefícios sociais.
- 'Mau sinal' -
Na semana passada, Kast enfrentou seus dois primeiros protestos liderados por ambientalistas e estudantes, que temem mudanças no sistema educacional universitário, no qual também anunciou que avalia fazer cortes.
Para Gonzalo Müller, diretor do centro de políticas públicas da Universidade do Desenvolvimento, Kast não busca "desmantelar um suposto legado" de Boric.
"Existem muitos pontos de fricção entre as decisões tomadas durante o governo anterior que não eram compartilhadas pelo novo", comenta.
Uma pequisa recente da consultoria Cadem adverte para um primeiro golpe na popularidade de Kast: caiu de 57% para 43% desde que assumiu a presidência.
"Não vamos tomar decisões com base na popularidade, mas em torno da gestão, do bom trabalho, e com o tempo as coisas se estabilizam", disse o presidente em entrevista a veículos locais nesta terça-feira.
No centro de Santiago, a contadora Wanda Alarcón, de 55 anos, diz apoiar os cortes de Kast. "É preciso se adaptar ao orçamento. Se você não tem muito na carteira, precisa economizar."
O novo governo anunciou que vai flexibilizar as normas ambientais para impulsionar a economia. "Não vamos nos enganar se tivermos que priorizar três arvorezinhas sobre 100.000 empregos", assegurou o ministro da Economia Daniel Mas em entrevista ao jornal El Mercurio.
Entre as normas que Kast freou está uma para regular as emissões de poluentes, outra para a criação de nove parques nacionais protegidos e um registro de sanções contra infratores ambientais.
Também consta dessa lista um decreto ampliando a proteção ao pinguim-de-humboldt, uma espécie endêmica em risco de extinção.
A norma declarava esta ave um "monumento natural", o que poderia afetar interesses econômicos nas áreas em torno de seu hábitat.
"É um mau sinal", diz Alejandro Simeone, cientista que estuda essa espécie de pinguim há três décadas. "Estamos em um cenário em que tudo é tão negativo, tão complexo, que é provável" que o animal desapareça nas próximas décadas, afirma.
De acordo com um estudo liderado pelo especialista, a população do pinguim-de-humboldt caiu 63% entre 2022 e 2025 por causa da gripe aviária, pelo fenômeno El Niño e pela disputa por alimento com a indústria pesqueira.
"É um erro considerar isto uma antítese, em que proteger a natureza signifique deixar de realizar atividades econômicas", diz a ecologista Cristina Dorador, pesquisadora sobre a conservação de desertos de sal.
L.Stucki--VB