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Potosí, a mina da Bolívia que devora jovens atraídos pelo boom dos metais
Deslumbrados pelos altos preços internacionais dos metais, crianças e jovens bolivianos como Efraín Villaca arriscam a vida para explorar as entranhas do Cerro Rico de Potosí em busca de prata, que possivelmente terminará na China.
Villaca, de 28 anos, entra diariamente no Cerro Rico de Potosí, montanha andina de 4.800 metros de altitude, famosa por abrigar uma das maiores minas de prata do mundo há mais de cinco séculos e motor econômico da colônia espanhola. Declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, o cerro produziu metade da prata mundial durante um século.
Ele já quase desmaiou após se intoxicar com gases nocivos. Em janeiro e fevereiro, ao menos 32 mineiros morreram nesse departamento, segundo a Defensoria do Povo.
"Essa carga não valia muito", afirma o jovem, sentado sobre toneladas de pedras com prata, estanho, zinco e chumbo. Agora os mineiros "ganham muito mais do que alguns profissionais lá fora": cerca de 1.000 dólares por mês (R$ 5,2 mil). O salário mínimo na Bolívia é de cerca de 470 dólares (R$ 2,4 mil).
A prata, essencial na transição energética, era cotada em 2022 abaixo de 20 dólares a onça. Após ter alcançado 120 dólares em meio à incerteza geopolítica impulsionada pelos Estados Unidos, hoje gira em torno de 87 dólares (R$ 448). O estanho triplicou de preço em quatro anos devido à demanda da indústria tecnológica.
A China é o maior comprador de prata boliviana, com mais de 532 milhões de dólares (R$ 2,74 bilhões) negociados em 2024, segundo o Ministério de Mineração. O estanho vai principalmente para os Países Baixos e o zinco, para o Japão.
A advogada Jackeline Alarcón, da Defensoria do Povo, afirma que isso atraiu muitos jovens e que "nestes últimos anos, as mortes vêm aumentando". Em 2022 houve 77 óbitos; em 2025 já eram 123.
"De toda a Bolívia, e me atreveria a dizer de toda a América do Sul, Potosí é o [lugar] que tem mais mortes no trabalho minerador. Está se desumanizando", adverte.
- "Não sabemos se vamos sair" -
Os trabalhadores se revezam 24 horas por dia. O cerro, explorado há cinco séculos, está nas mãos de dezenas de cooperativas; no país há cerca de 1.700, responsáveis por 58% da produção nacional, segundo o governo.
Mas "com os preços altos, os sócios deixaram de trabalhar diretamente e contrataram pessoas para fazer o trabalho em seu lugar", o que é ilegal, diz o engenheiro Héctor Córdova. "E, por serem ilegais, não têm atendimento médico, seguros, a segurança industrial é muito precária. Então estão em um nível quase de escravidão", acrescenta.
Mineiros descansam no interior da mina mascando coca e alguns bebem álcool de 96 graus. Não usam proteção respiratória, apenas capacete.
"Entramos bem, mas não sabemos se vamos sair bem ou mal", afirma Efraín Limache, de 24 anos, que viu dois amigos morrerem e sobreviveu a uma queda de 50 metros.
O ministro de Mineração, Marco Calderón, disse à AFP que capacitará cooperativistas para evitar acidentes.
No Hospital Bracamonte, em Potosí, chegam cada vez mais mineiros acidentados, afirma a médica Giovanna Zamorano. "São novatos e por causa disso há muitos óbitos". A maioria tem entre 20 e 25 anos, mas há menores. "Já atendi crianças", relata.
Muitos jovens vieram de outros departamentos nos últimos meses, confirma Alarcón. "Infelizmente o poder não vê Potosí como um patrimônio. Nos veem como uma jazida", lamenta.
M.Vogt--VB