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Cotação do dólar é imposta com prisões na Venezuela
Prisões, advertências e o retorno do "dólar criminoso" ao discurso do governo: a Venezuela tem pressionado o mercado ilegal de câmbio para conter a crescente diferença da taxa oficial.
O dólar se tornou a moeda de fato na Venezuela desde 2018, quando o governo de Nicolás Maduro informalmente despenalizou seu uso. Mas não houve uma dolarização formal e, assim, coexistem um dólar "oficial", regulado pelo governo, e um "paralelo".
A sempre flutuante diferença entre os dois mercados começou a aumentar em meados de 2024, quando o Banco Central da Venezuela (BCV) reduziu suas intervenções após meses de estabilidade na taxa e nos preços, coincidindo com a campanha de reeleição de Maduro.
O problema disparou com a decisão dos Estados Unidos de reverter uma flexibilização ao embargo petrolífero no país, que também injetava divisas no mercado.
O "dólar paralelo" chegou a ser cotado entre 25% e 50% acima da taxa do BCV. Essa discrepância, porém, foi momentaneamente reduzida com a detenção de cerca de 25 pessoas que publicavam o valor do "paralelo".
Com as prisões, esses indicadores do preço do dólar paralelo também desapareceram. A confusão sobre o seu verdadeiro valor pode prejudicar o comprador, mas às vezes também quem vende.
- Moeda de fato -
"Aconteceu comigo em uma loja de ferragens, a compra custava no total 60 dólares, e se eu pagasse em bolívares saía quase 86 no câmbio” oficial, contou Eleazar Armas, um segurança de 52 anos. "Quando pedi a explicação (...) me disseram que era isso que valia o dólar."
"Se você analisar é uma diferença (...), eu perco como comerciante", explica por outro lado à AFP Nelson Martínez, comerciante de 30 anos.
Na Venezuela, o pagamento em dinheiro normalmente é feito em dólares, embora a disparidade cambial tenha levado as pessoas a venderem divisas para pagar com bolívares mais baratos.
Os comércios são obrigados a cobrar na taxa oficial, mas alguns usavam o paralelo. Outros faziam uma média entre o oficial e o paralelo ou tinham como referência a taxa do euro, que é mais alta.
Há também quem ofereça um desconto de até 25% se o pagamento for feito em dinheiro vivo ou transferência bancária em dólares. O sistema de envio de dinheiro americano Zelle é muito popular na Venezuela.
- Operação "silenciosa" -
O mercado ilegal surgiu na Venezuela à sombra de um rígido controle cambial que esteve em vigor por 15 anos. As autoridades detiveram, em 2016, o dono de um site que cotava o dólar paralelo e, nos anos seguintes, mais prisões se seguiram.
O ministro do Interior, o poderoso Diosdado Cabello, explicou no último 28 de maio que uma investigação "silenciosa" levou às prisões desses mais de 20 supostos responsáveis por estabelecer o câmbio paralelo em portais da internet agora desaparecidos.
O dono de uma plataforma de criptomoedas, que também servia como referência para o dólar, publicou um vídeo anunciando o encerramento das operações e dizendo que estava "arrependido". Ele garantiu que "de forma alguma" buscou "promover a especulação sobre o dólar paralelo".
A diferença entre as cotações "não vai desaparecer da noite para o dia", apontou Aaron Olmos, economista da prestigiosa escola de negócios IESA.
"Pode tender a diminuir" após as prisões, mas "os comerciantes e as pessoas vão buscar uma forma alternativa".
- "Dólar criminoso" -
A diferença cambial abre caminho para mais inflação, fantasma frequente na economia da Venezuela.
Maduro culpava o "dólar criminoso" pela profunda crise, com sete anos de recessão e quatro de hiperinflação. Foi a mesma moeda que depois qualificou como "válvula de escape" à dura realidade agravada com as sanções ao petróleo.
Em março, quando a diferença aumentava, ele voltou a atacar o "dólar de guerra", um "velho inimigo da economia venezuelana".
"A tentativa de controlar referências cambiais eliminando sites (...) não corrige nem a escassez nem as expectativas", afirmou o economista Luis Vicente León.
O fim das intervenções do BCV "permitiu aumentar reservas, mas ao mesmo tempo contribuiu para uma maior desvalorização do bolívar".
R.Buehler--VB