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O último refúgio do narcotraficante mexicano 'El Mencho'
O estrondo das metralhadoras e o rugido dos helicópteros sacudiram o luxuoso complexo turístico onde se escondia o chefão mexicano "El Mencho", mergulhando na angústia os turistas que passavam um fim de semana tranquilo na pitoresca comunidade de Tapalpa, no oeste do México.
Nemesio Oseguera, o poderoso líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), tentou com seus comparsas repelir a espetacular operação militar lançada no último domingo (22) nesta região das montanhas de Jalisco.
No entanto, na fuga pela floresta, foi atingido por disparos do Exército e, embora os militares tenham tentado levá-lo de helicóptero a um hospital, morreu em consequência dos ferimentos.
"Foi um terror, (...) ouvia-se as metralhadoras (disparando) da terra para o ar e do ar para a terra", relata à AFP um turista que chegou uma noite antes ao mesmo complexo onde fica a cabana de "El Mencho", e que pediu para manter o anonimato por segurança.
Mal havia amanhecido quando os tiros o surpreenderam. "Aumentaram gradualmente, e então os disparos ficaram altos", acrescenta, estimando que o confronto durou algumas horas.
Os turistas que alugaram as exclusivas cabanas só puderam sair nesta terça-feira (24), depois que a Prefeitura pediu que permanecessem abrigados desde domingo.
- Último encontro -
Oseguera teve nessa luxuosa cabana seu último encontro com a namorada que, segundo informes oficiais, foi a peça-chave para localizá-lo.
Segundo testemunhos recolhidos pela AFP, "El Mencho" mantinha um perfil discreto no Tapalpa Country Club, o complexo de residências de descanso do estado de Jalisco, berço da organização criminosa.
"Não sabia que havia pessoas assim", conta sob anonimato uma jovem empregada doméstica que vive na região.
Mas um turista, que também pediu para não ser identificado, afirma que ouviu que o chefão do narcotráfico "estava nesta região". Imaginou o que poderia acontecer se tentassem prendê-lo. "Foi um momento de muita tensão", explica.
Na manhã de domingo, um grupo de forças especiais do Exército aproximou-se da cabana de "El Mencho" e foi recebido a tiros pelos pistoleiros que formavam o cinturão de segurança do traficante.
Na terça-feira, as autoridades impediam a aproximação ao local. A residência, que exibia enormes imagens religiosas do lado de fora, ficou cercada por centenas de cartuchos e por um Jeep abandonado com as portas abertas, relataram moradores da região.
Alguns veículos de imprensa mexicanos divulgaram imagens do luxuoso interior da cabana, onde se viam móveis com gavetas abertas e camas desarrumadas.
Havia ainda uma mesa com imagens religiosas e velas, uma oração escrita à mão e medicamentos para tratar os problemas renais que supostamente afetavam Oseguera há anos.
- Vingança incendiária -
Este lugar pacato, considerado "mágico" por seu charme e suas atividades de turismo de montanha, foi o epicentro de uma onda de bloqueios em rodovias, incêndios em postos de combustível e comércios que se espalharam por 20 dos 32 estados do país, em ações coordenadas do CJNG para vingar a morte de seu chefe.
"Estavam queimando carros e ônibus na saída de Tapalpa", recorda a empregada doméstica, ainda nervosa.
Nesta terça-feira, o local parecia deserto. Os turistas, que costumam passar os fins de semana neste refúgio florestal, começaram a deixar a cidade e evitavam falar com a imprensa.
Os visitantes viajaram em longas caravanas escoltadas por veículos oficiais pela rodovia repleta de militares.
No centro de Tapalpa, de cerca de 23 mil habitantes, os comércios começaram a reabrir e a atividade, lentamente, retomou seu ritmo habitual.
Até segunda-feira, as rotas para o destino turístico estavam bloqueadas com veículos incendiados, prática habitual das organizações criminosas para impedir a chegada de reforços militares e policiais.
A alguns quilômetros da comunidade, os pistoleiros abriram uma vala no meio da estrada.
"Vão para Tapalpa? Os caminhões não estão indo para lá", gritou um jovem à procura de alguém que o levasse à localidade.
L.Maurer--VB