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Vítimas de tragédia em Mariana esperam justiça por 'um crime muito grande'
"Muitas pessoas estão morrendo de câncer, o que não existia no Brasil", diz Marilda Lyrio de Oliveira, liderança indígena de Aracruz, no Espirito Santo, ao descrever à AFP, em Londres, o que representou a tragédia ambiental causada em 2015 pelo rompimento da barragem do Fundão, nas proximidades de Mariana (MG).
No dia 14 de novembro, a Justiça britânica considerou a gigante da mineração australiana BHP responsável pelo que Marilda classifica como um "crime muito grande". A sentença pode resultar em indenizações de bilhões de dólares.
Em 5 de novembro de 2015, o rompimento de uma barragem de rejeitos da mina de ferro do Fundão, localizada no município de Bento Rodrigues, perto da Mariana, matou 19 pessoas, arrasou várias cidades e liberou 40 milhões de metros cúbicos de resíduos de minério tóxicos, que percorreram 650 km pelo rio Doce até chegar ao Oceano Atlântico.
A BHP era coproprietária, junto com a mineradora brasileira Vale, da empresa Samarco, dona da barragem que se rompeu.
Uma dezena de demandantes brasileiros afetados pela tragédia estão em Londres para assistir a uma audiência, nesta quarta (4) e quinta-feira, no Tribunal Superior de Justiça britânico, na qual deve ser decidido o calendário do julgamento de compensação e quais documentos e provas periciais serão necessários.
"Espera-se que o juiz se ocupe exclusivamente de questões práticas sobre como vai funcionar a próxima etapa do caso", explicou à AFP o escritório de advocacia Pogust Goodhead, que defende os demandantes.
- Mais de 600.000 afetados -
A questão das indenizações por perdas e danos para os mais de 600.000 demandantes registrados deverá agora ser objeto deste segundo julgamento.
"Nós esperamos o que for justo, o que nos cabe realmente porque o impacto foi muito grande, o crime foi muito grande", afirma Marilda.
A BHP tinha duas sedes no momento dos fatos, uma dela em Londres, o que explica o julgamento na capital britânica, realizado entre outubro de 2024 e março de 2025. Desde o início do processo, a mineradora australiana negou ser "contaminadora direta".
Em 2024, a Justiça brasileira absolveu as empresas porque considerou que as provas analisadas não eram "determinantes" para estabelecer sua responsabilidade.
Os demandantes recorreram, então, à Justiça britânica, por não terem ficado satisfeitos com os processos que tramitaram no Brasil, reivindicando há dois anos 36 bilhões de libras (aproximadamente R$ 285 bilhões, na cotação da época).
"Temos problemas de saúde, problemas mentais, por não ter mais aquela tarefa que se fazia antes", acrescenta Marilda.
"Nós, indígenas, somos impactados em tudo. Eu, como curandeira, não posso mais usar as ervas que existem no meu país. Não posso mais vender meus artesanatos no meu país, tenho que buscar fora. Não posso mais me alimentar daquilo que os rios nos oferecem. Hoje todos temos que comprar. Para nós está muito difícil", diz a líder indígena.
O grupo australiano lembrou hoje que assinou em 2024 um acordo de reparação e compensação no valor de R$ 170 bilhões com autoridades brasileiras, o que permitiu indenizar "mais de 610 mil pessoas". A empresa argumentou que "cerca de 240 mil autores" do processo no Reino Unido deveriam ter suas reivindicações retiradas, porque já foram indenizados no Brasil.
- 'Rompeu nossa vida' -
Ana Paula Auxiliadora Alexandre, que mora em Ouro Preto (MG), perdeu o marido na tragédia. Aos 40 anos, ele deixou viúva e quatro órfãos.
"O sofrimento da perda foi tão grande que rompeu nossa vida, interrompeu sonhos, paralisou nossa vida. Durante esses dez anos estamos correndo atrás de justiça", explica Ana Paula.
Renzo Vasconcelos, prefeito de Colatina, no Espírito Santo, explica que "a Justiça londrina está garantindo o direito do brasileiro, o direito do colatinense de ser restituído ou reparado pelo crime ambiental causado pela mineradora".
"Menos de 15% dos cidadãos do município de Colatina receberam alguma indenização. Portanto, faltam aí 80%, 90% para receber esse direito e restituir um pouco deste crime ambiental", acrescenta Vasconcelos.
"Desgraçadamente, é a Justiça britânica que está conseguindo algo que a Justiça brasileira aparentemente não lhes deu. Eu acredito na Justiça brasileira, acredito que, de fato, a gente possa organizar melhor e reparar os danos no Brasil, mas lá não se contemplou o quantitativo específico ou o direito de cada brasileiro, de cada habitante do Espírito Santo e de Colatina", conclui.
R.Buehler--VB